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Ser dono do livre

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oje um filhote de passarinho passou o dia todo, desde cedo, na grade da janela aqui do escritório. A foto está aí embaixo, pude tirar de pertinho, o insufilm no vidro não permitiu que ele visse que estava sendo focalizado. A mãe dele veio trazer comida no bico várias vezes, mas não consegui flagrar aquela cena (registrei na memória, emocional que só). Não sei como ele conseguiu chegar ali... embaixo da marquise, só se veio voando; e o tempo em que ele esteve ali, principalmente ganhando comidinha da mãe, me fez crer que ele não sabe voar ainda. Também não reparei quando e como ele saiu dali, no final da tarde. Mas, até inspirado pela Vovó Vicki e seu tiê-sangue, passei um tempo observando o bichinho. Lembrei do meu impulso de quando era criança, se voltasse no tempo com certeza iria aproveitar a fragilidade do passarinho para tomar posse do desafortunado sentenciando-o à gaiola.

 

Sabe, como o rei de “O Pequeno Príncipe”, que mandava o sol se por e ele obedecia, desde que mandasse sempre às seis e tanto da tarde, eu me senti tão dono deste passarinho hoje, vivendo a liberdade de observá-lo sendo aquilo que ele é, livre para ser passarinho, e concluí que a criança que fui nunca teve seus passarinhos... O bichinho na gaiola já não é mais ele, é somente parte... Está lá a penugem, está lá o piado, move-se de poleiro a outro, come, mas não é o mesmo passarinho que troca de galhos, brinca com outros passarinhos, cisca minhocas, alimenta os filhotes, faz ninho e enfeita o céu visível. Quando ando pelo mundo e presto muita atenção em tudo (como diria o Belchior na voz da Adriana Calcanhoto) vejo que sou dono de tanto, uma riqueza que me pertence pelo fato de não me pertencer. E não é assim também com as pessoas? Quanto mais livre é quem tenho, mais tenho. Quanto mais tento possuir, controlar, quem tenho, menos tenho. Se confio no caráter de quem está a meu lado, porque castigar subjugando à prisão? Se não confio, seu caráter por acaso mudará por eu tentar controlar?

 

A relação de possessão e liberdade é um dos paradoxos lindos que o criador planejou para a humanidade. Os tesouros que guardo são atacados por traça, ferrugem e ladrões, os que não guardo se transformam em sorrisos, lágrimas de alegria, vida. Manter o que está sob minha possessão é trabalhoso e desgastante, viver o que não tenho é leve. Eu ia aproveitar a metáfora e voltar à temática de tecnologia, falando das vantagens de se trabalhar com software livre ao invés de proprietário, mas o fluxo deste post ficou tão leve que não quero mudar o lado do cérebro em atividade agora. Olhe o passarinho! Click!

 

 

 

Passarinho na grade da minha janela. 

 

Eles passarão... eu, passarinho!
(Mário Quintana)

 

 

Atualização Sex, 03.10.2008 02:17  

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