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Escrito por vovó Vicki   
Sáb, 31.03.2007 12:46

O início da história recente da humanidade traz consigo quase 4000 anos de criptologia. Foram quatro milênios de idéias, engenhosidade e criatividade tanto para esconder informações (criptografia) quanto para descobrir informações escondidas (criptoanálise). Esta dualidade, criptografia versus criptoanálise, sempre acompanhou a evolução, as necessidades e os interesses dos homens - um ser eternamente preocupado em manter informações em segredo e curioso o suficiente para sempre querer obter informações sigilosas.

A criptologia não trilhou um caminho solitário - sempre se valeu das inovações tecnológicas de cada época. Senão, vejamos: o homem inicialmente precisou aprender e dominar a escrita; somente depois é que surgiu a necessidade de "esconder" informações escritas. Por outro lado, de que valeriam códigos em escrita cuneiforme ou hieroglifos de duplo sentido sem instrumentos como estiletes ou bastões e sem a cerâmica, as tintas e os esmaltes?

Durante quatro milênios os recursos foram bastante limitados. Partimos de pedras, passamos pela argila, chegamos à cerâmica e aos pigmentos para, finalmente, iniciarmos uma nova etapa que se iniciou com o papiro e chegou ao papel, utilizado até os dias de hoje. Do carvão chegamos aos lápis, do estilete evoluímos para as penas de ganso, as penas de aço (criadas no fim da idade moderna), as canetas tinteiro e as esferográficas. A cada passo da evolução tecnológica surgiam novos desafios e novas possibilidades para a criptologia. O ritmo, no entanto, era compassado: a cada 100 ou 200 anos, surgia uma novidade.

Na Idade Média, por conta de uma certa inércia na criptografia, a criptoanálise ganhou força - a maior contribuição veio dos povos árabes, livres das amarras medievais. A Renascença deu novo alento à cultura ocidental e permitiu que figuras como Alberti, o "pai da criptologia ocidental", Trithemius, Della Porta e Vigenère divulgassem seus trabalhos e suas descobertas sobre o assunto. As constantes guerras, as necessidades de expansão e as intrigas políticas mantinham a criptografia em alta e seus expoentes em destaque. Menos conhecidos, porém não menos importantes, os decifradores realizavam seu trabalho na retaguarda.

Os últimos dois séculos da nossa história caracterizam-se por grandes e importantes descobertas. Passamos de um mundo movido pela força braçal para um movido a eletricidade; de um mundo movido a notícia boca-a-boca para um movido a telégrafo, rádio, telefone, televisão e Internet; passamos de um transporte que usava animais ou vento para transportes movidos a vapor, motores de combustão, turbinas e energia nuclear. E o que foi que aconteceu na criptologia? De longos e penosos cálculos feitos à mão passamos para máquinas de calcular e computadores.

Comparadas com épocas anteriores, as distâncias foram "encurtadas" e o tempo foi "reduzido" num ritmo alucinante. A informação e o conhecimento passaram por um intenso processo de "socialização", a tecnologia fica a cada dia mais barata e a criptologia ganhou as ruas, deixando de ser exclusividade militar ou diplomática. Dados pessoais passaram a polarizar a criptografia pela necessidade premente de sigilo no dia-a-dia do cidadão comum e a atividade econômica globalizada passou a exigir sistemas criptográficos tão seguros quanto os utilizados para guardar segredos de Estado. Por outro lado, a quebra do sigilo também se popularizou: os "hackers" dos tempos atuais nada mais são do que a versão moderna dos criptoanalistas de gabinete... e quem é que segura este povo?

Seja lá o que você estiver pensando depois de ler o que acabo de escrever (provavelmente "e eu com isto?"), lembre-se que, se, entre outras coisas, sua conta bancária for esvaziada sem o seu consentimento, nas próximas eleições alguém votar em seu nome, seu celular for clonado ou se aparecer uma despesa no seu cartão de crédito que você desconhece, isto tem tudo a ver com as novas possibilidades tecnológicas da nossa época aplicadas à criptologia e com as atividades decorrentes da sua popularização sorriso


PS: Efeméride famosa da data deste artigo: em 31 de março de 1969 houve aqui no Brasil um golpe militar. Dizem as más línguas que, na verdade, foi em primeiro de abril, mas a data era ruim porque é o dia da mentira e os militares resolveram antecipar.

Grande abraço da vó vovo Vicki

Atualização Qui, 03.04.2008 14:21