A falcoaria é a ciência de adestrar aves de rapina, considerada por muitos uma forma de arte devido ao alto grau de sensibilidade e dedicação exigidas para sua prática. Muitos de nós associam a falcoaria a filmes e romances históricos famosos onde cavaleiros envergando brilhantes armaduras trazem em seu punho belos falcões com estranhos adornos sobre a cabeça e fitas que balançam sob suas garras quando as aves voam, deixando a luva do falcoeiro.
Imagina-se que a falcoaria tenha começado a ser praticada na época em que os homens ainda viviam da caça e coleta. Seu local de origem é incerto, porém, diversas teorias apontam a Ásia Central, China e Pérsia como berço mais provável. Os registros mais seguros sobre a idade da falcoaria são gravuras ilustrando claramente um falcoeiro em atividade, encontradas no século passado em ruínas na Mesopotâmia e datadas como sendo de 1700 a.C., contudo, registros mais antigos levam a crer na utilização de falcões como presentes oferecidos a príncipes chineses durante a dinastia Hia (provavelmente iniciada em 2205 a.C.).
Estas técnicas de caça chegaram à Europa ao redor do século V e foram introduzidas pelos invasores germânicos. Os mosaicos da Villa Halconero, em Argos, na Grécia, mostraram pela primeira vez no que consiste esta arte. Depois da sua introdução na Europa, a falcoaria se disseminou rapidamente tornando-se o esporte favorito de reis e príncipes. Durante a Renascença, quando as armas de fogo foram aperfeiçoadas, a falcoaria declinou e praticamente desapareceu.
A falcoaria deu origem a uma literatura abundante. O primeiro trabalho na Europa foi o tratado de "Anonymous de Vercelli". Sagrado Imperador Romano, Rei da Sicília e Rei de Jerusalém, Frederico II von Hohenstaufen escreveu uma das mais belas e mais completas obras sobre o assunto. Aficcionado pela caça e com um interesse especial em falcoaria e ciências naturais, Frederico II coletou informações, experiências e observações por mais de trinta anos para escrever o tratado mais importante do Ocidente: A Arte da Falcoaria (De Arte Venandi cum Avibus).
Escrito em 1274, este tratado tornou-se o mais conhecido e mais famoso sobre o assunto, em parte também devido às suas belíssimas ilustrações. A marginália mostra 170 figuras humanas, mais de 900 espécies de pássaros, 12 cavalos e 36 outros animais, além de todos os apetrechos necessários para a prática da falcoaria. Como Frederico II se opunha à Igreja, seus escritos foram inicialmente proibidos e só foram publicados em 1596. Os ornitólogos demoraram mais algum tempo para "descobrir" o livro, o que só ocorreu em 1788. Este foi um dos primeiros trabalhos científicos e a obra que estabeleceu as bases para a ornitologia.
Foi com falcoeiros que aprendemos ser possível a reprodução em cativeiro, hoje um elemento importantíssimo para programas de preservação da vida silvestre ao redor do mundo. Seguem dois exemplos:
Em julho de 1999, Bill Clinton, o então presidente dos EUA, anunciou que a ave nacional, a águia-careca (Haliaeetus leucocephalus), havia sido retirada da lista de espécies sob risco de extinção graças aos esforços de programas de conservação conduzidos pelo governo. Ambientalistas em todo o mundo congratularam-se pelo desenvolvimento de uma tecnologia capaz de permitir a reprodução, condicionamento e integração à vida silvestre de animais tão delicados e importantes quanto predadores de topo de cadeia alimentar.
Em 2001 o sucesso americano foi repetido pelo Projeto de Conservação do Condor Andino (Vultur Gryphus), conduzido binacionalmente pela Argentina e Chile desde 1991, através da soltura, em áreas de conservação, de aves reproduzidas em cativeiro. Foi mais uma grande vitória na luta contra o desaparecimento de outra espécie praticamente extinta na natureza.
Ainda não é tudo. Como os falcões costumam "por ordem no pedaço", estas aves de rapina podem ser acionadas para "espantar" outras aves que se aglomeram em locais onde representem perigo. É o caso de armazéns de grãos, silos e fábricas onde costuma haver grande concentração de pombas por falta de predadores naturais. Além de transmitirem uma porção de doenças graves (o que é um problema de saúde pública), os excrementos deixados por estas aves é um entrave sério: será que o padeiro quer comprar farinha ou grãos com fezes de pombas? Os importadores do nosso trigo e da nossa soja também estrilam, e não é pouco! Embalagens sujas e máquinas emporcalhadas também não são o que se quer numa empresa. É aí que entra o falcoeiro, simplesmente para intimidar as pombas evitando que voltem ao local.
Outro trabalho "moderno" para os falcões é em espaços de aeroportos. O número de acidentes causados durante pousos e decolagens é bastante significativo, principalmente quando aves de maior porte, como urubus, gaviões e gaivotas, ficam circulando nestas áreas e acabam colidindo com aeronaves ou sendo sugadas por turbinas. Na Europa e nos EUA, principalmente nos aeroportos de grande movimento e nos aeroportos militares, há muitos anos a falcoaria é uma realidade.






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